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Transgênicos: malefícios do mau uso dos dados e o diálogo mentiroso

Resposta ao artigo: Transgênicos: benefícios e diálogo, publicada no Jornal da Ciência em 11 de maio de 2015

Gostaria que os nobres cientistas discorressem sobre a metodologia de cálculo do aumento da produtividade no Brasil. O referido artigo afirma que “os transgênicos representam apenas 30% da área plantada: são 160 milhões de hectares cultivados com as mais diversas culturas no país contra apenas 45 milhões com cultivos transgênicos”, e vai mais fundo, dizendo que “a produtividade geral da agricultura brasileira nos mesmos 10 anos: foi de 200%”, referindo-se, provavelmente, ao período de 2004 a 2013.

Como cidadão, fiquei impressionado com a eficiência do agro brasileiro e fui conferir os dados. Afinal, plantar 160 milhões de hectares e cravar um aumento de produtividade geral em exatos 200% é um feito incrível!

Apenas 10 minutos de pesquisa no site da PAM/IBGE, foram necessários para me desiludir. O agro brasileiro não estava com essa bola toda…Em 2004, o somatório da produção de culturas temporária e permanente foi de 609.173.973 toneladas, numa área de 62.691.475 hectares, o que acarreta numa produtividade de 9,72 toneladas por hectare.

Em 2013, tivemos 1.034.842.193 produzidos em 74.206.968 de hectares, que resultam em 13,94 toneladas por hectares.

Ou seja:

1) A área total plantada no Brasil é de 74 milhões de hectares, “apenas” 86 milhões a menos, quase uma França e meia mais. (Com a diferença que a França caminnha a passos largos para banir os transgênicos). Estamos confundindo agricultura com pecuária ou silvicultura? Espero que não…

2) Disso decorre que os transgênicos não representam 30% das plantações, e sim 40,3/74 = 54%. (A área de transgênicos em 2013 foi de 40,3 milhões de hectares, medidos sabe-se lá como pelo ISAAA.) Considerando que mais de 90% da soja é transgênica, e que mais da metade dos agrotóxicos usados no Brasil vão para a soja, a afirmação de que “a contribuição dos transgênicos no consumo de agrotóxicos é menor” no mínimo está subjugando a inteligência dos leitores.

3) Finalmente, o fantástico aumento de produtividade de 200% minguou para 43,51%. O que não é mau. Mau é errar 360% numa conta.

4) Ainda, é muito mau-caratismo estatístico usar como argumento que no período a área de transgênicos aumentou 1000% (da próxima vez use o número correto: 1306,67%, de 2003 a 2014, ok?). Qualquer coisa que começa do zero vai ter um crescimento alto. Comparar o crescimento dos transgênicos ao dos agrotóxicos desde que os transgênicos começaram (oficialmente) é como se não se usasse agrotóxico antes de 2003, e todo o crescimento fosse devido aos transgênicos. Nunca ninguém fez essa afirmação.

Prezados Paulo Paes de Andrade, Francisco G. Nóbrega, Zander Navarro, Flávio Finardi Filho, Walter Colli,

Se vocês argumentam que não temos dados para provar a relação entre uso de agrotóxicos e transgênicos, tampouco vocês o têm para provar o contrário. Mesmo inventando. Querem diálogo? Dialoguem de maneira justa. Jogar números estapafúrdios para ver se cola é prova da falta de argumento.

Transgênico é feito para ser resistente a agrotóxico, e portanto é óbvio imaginar que o uso de agrotóxicos vai aumentar. Ou será que é coincidência que as 6 grandes empresas de agrotóxicos são donas das patentes de transgênicos? Será porque transgênicos e agrotóxicos não têm nada a ver?

Sei que você não gostam do princípio da precaução. Mas invoco ele para afirmar que quem deve provar que transgênico não aumenta o consumo de agrotóxico são vocês. Sem inventar.

Atenciosamente,

Alan Tygel, engenheiro e membro da coordenação da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida.

Em 2014, cada brasileiro consumiu 7,3 litros de agrotóxicos

Em artigo, coordenador da Campanha contra os Agrotóxicos aponta que, de 2007 até hoje, mais de 34 mil casos de intoxicação por agrotóxico foram notificados no SUS

Brasil de Fato, 28/04/2015

por Alan Tygel*

No início de 2011, a Campanha Contra os Agrotóxicos causou estardalhaço ao afirmar que cada brasileiro consumia 5,2 litros de agrotóxicos por ano. À época, o cálculo foi simples: a indústria dos venenos, orgulhosa do sucesso de seu mortífero negócio, alardeou aos quatro ventos que havia vendido 1 bilhão de litros de agrotóxicos. Divididos pelos então 192 milhões de habitantes, nos davam os 5,2 litros por pessoa. Ainda que este volume todo não chegue diretamente à nossa mesa, vai nos encontrar algum dia pela terra, pela água ou pelo ar. O veneno não desaparece, como querem fazer crer aqueles que enriquecem com ele.

Pois bem, depois do baque, as associações patronais agrotóxicas deixaram de divulgar a quantidade de litros vendidos por ano. E, dada a escassez de dados oficiais sobre a venda destes produtos no Brasil, ficamos quase sem alternativas para medir o nível geral de intoxicação no país.

Quase. Talvez para atrair mais “acionistas-vampiros”, a indústria continuou divulgando sua receita anual, que, em 2014, representou US$ 12,2 bilhões. Multiplicado por 3, chegamos aos exorbitantes R$ 36,6 bilhões.

Quanto custa um litro de agrotóxico?

Agrotóxico é um nome genérico para diversas substâncias utilizadas na agricultura e no controle de vetores urbanos. Em comum, uma característica: matam a vida. Poderiam, portanto, ser chamados de biocidas.

O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) publicou, em 2012, a quantidade de princípios ativos de agrotóxicos vendidos naquele ano. Os três entes reguladores – Ibama, Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e Ministério da Agricultura (MAPA) – deveriam receber estes dados das empresas e publicar. Contudo, apenas o primeiro o faz, e já com atraso de dois anos.

Por esta lista, vemos que os principais produtos são: glifosato, 2,4-D, atrazina, acefato, diurom, carbendazim, mancozebe, metomil e clorpirifós. Retirando-se os aditivos, eles representam 80% do total de agrotóxicos vendidos.

Uma busca pelos preços de agrotóxicos na internet revela um cenário assustador. Encontra-se, por exemplo, a atrazina (disruptor endócrino) a R$ 0,34 o litro, enquanto o mais caro, glifosato (cancerígeno), na promoção sai por R$ 35. Com uma média dos preços, ponderada pela participação no mercado, chegamos ao valor de R$ 24,68 por litro de agrotóxico.

A partir da população estimada pelo IBGE em 2013, de 201 milhões pessoas, temos R$ 36,6 bilhões / R$24,68 por litro de agrotóxico / 201 milhões de pessoas. O que resulta, então, em 7,36 litros de agrotóxico por pessoa.

E o povo com isso?

Os preços dos produtos variam, o dólar ora sobe, ora desce. Poderíamos ter alguns mililitros a mais ou a menos, mas o certo é que, de 2007 até hoje, 34.282 casos de intoxicação por agrotóxico foram notificados no Sistema Único de Saúde (SUS). Mesmo assim, qualquer um que viva no campo sabe o quão improvável é que uma pessoa reconheça os sintomas de intoxicação, consiga chegar ao atendimento e que o serviço notifique corretamente. Seja por desconhecimento ou por pressão de quem mandou aplicar os venenos.

Certo também é que, além de caros e perigosos, os venenos, assim como os transgênicos, são desnecessários. De Sul a Norte do país, a produção agroecológica ganha força na terra, nas feiras e na mesa da população. A não ser que algum fazendeiro ganancioso inviabilize a produção limpa jogando veneno na lavoura alheia. Infelizmente, acontece, e muito.

O povo precisa de informação

Anvisa, publique os dados sobre vendas de agrotóxicos. Ministério da Agricultura, faça o mesmo. Ibama, atualize seus dados. Conselhos Regionais de Engenharia e Agronomia, responsáveis pela emissão de receitas agronômicas, implantem sistemas informatizados em todos os estados, e divulguem quanto, como e onde se aplica veneno neste país. Que tipo de engenharia vocês fazem, que não se compromete socialmente e não fornece informação vital para a saúde do povo?

No entanto, mais do que contar os mortos, queremos plantar a vida. Governo Federal, implemente o Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (Planapo). E, sobretudo, inicie o Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos, que permitirá a criação de zonas livres de agrotóxicos e transgênicos, além de banir, também no Brasil, agrotóxicos que já foram banidos lá fora.

Entidades de pesquisa renomadas como a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o Instituto Nacional do Câncer (Inca) e a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) já se juntaram a camponeses e camponesas, que são quem realmente nos alimentam.

E ainda precisamos de mais apoio da sociedade. Nossa luta diária contra o agronegócio, os agrotóxicos e os transgênicos só estará completa quando o alimento orgânico não for mais um privilégio e a agroecologia estiver ao alcance de toda a população.

*Alan Tygel é Engenheiro, e participa da coordenação nacional da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida