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Reflexões escritas pelos estudantes a partir da experiência da oficina de Dados Abertos e Movimentos Sociais.

Dados Abertos e Movimentos Sociais

Acho que dados abertos, e a manipulação de dados em geral, são recursos que devem ser valorizados nas lutas dos movimentos sociais. Ter dados em mãos e saber entendê-los pode reforçar a argumentação por trás das diversas reivindicações. As possibilidades do seu uso são muitas, como por exemplo a verificação de contas públicas, combate à corrupção, acompanhamento de financiamento de campanhas eleitorais, etc. Enfim, é de se pensar que se o grande capital tira proveito e se beneficia do uso e entendimento de dados, então é momento que os movimentos sociais usem essa ferramenta em suas lutas. Daí achei bacana a oficina, pois fornece uma visão geral do processo de uso de dados abertos.

Considero que a principal dificuldade está na organização das bases de dados, parecendo difícil de encontrar o que se busca e inclusive os dados “crus”. Elas devem ser estudadas e a sua estrutura mapeada. A disponibilização de dados em formatos não facilmente manipuláveis, além do fato de que provavelmente existem muitos dados de interesse que não são publicados, também são dificuldades.

Do tortuoso caminho das pedras

“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”. Assim começa o “Ensaio sobre a Cegueira”, de José Saramago, com uma epígrafe que está para além do retrato de como as pessoas deveriam agir numa condição em que quase todos não pudessem enxergar. Através desse trecho, toca-se na nossa cegueira cotidiana, aquela que também muito tem a ver com a experiência de quais leituras fazemos sobre o que nos circunda e de como circula a informação e os dados sobre a nossa realidade, principalmente quando se está imerso em lutas e disputas dessa própria realidade – situação comum ao campo dos movimentos sociais. O desafio de se deter sobre uma dada informação e não apenas ver, mas buscar sua fonte para a real compreensão, é um dos primeiros passos para se apropriar de uma nova forma de analisar os problemas pelos quais atravessam nosso povo; em suma, é como se “repara” em algo que nem sempre é divulgado da maneira que é de fato, é lançar-se à análise e ao cuidadoso e simultâneo trabalho de decomposição e reconstrução de outras interpretações.

O caminho para encontrar esses dados em sua pureza, a leitura dos mesmos e a posterior análise em diálogo com a realidade, não se trata de uma prática fácil; pouco é ensinada na academia, muito menos nas escolas. Desse modo, a descoberta desse percurso, configurando-se enquanto desafio real para a maioria das pessoas, passa a ser prática de uma parcela muito pequena de usuários das redes de informação, se considerarmos a abrangência que deveria tomar – tendo em vista a sua dimensão em termos de categoria (dados abertos) e finalidade (o acesso livre a informação de diferentes bancos de dados).

Ensinar esse caminho deveria tornar-se parte das abordagens pedagógicas de rotina em escolas e universidades, e seria uma forma de ampliar o acesso aos dados brutos daquilo que apenas vemos de modo “tratado” quando divulgado, principalmente, na mídia – um tratamento, muitas vezes, viciado, tendencioso e passível de viés por ser naturalmente manipulável.
Entretanto, ensinar o caminho não resolveria de todo a dificuldade do acesso aos dados abertos: o caminho é tortuoso demais, muitos deles continuariam sendo de difícil acesso, como o são hoje.

Desse modo, é importante frisar que a real abertura (e que não seja apenas de nomenclatura, mas de facilitação de acesso) destes dados precisa ser urgentemente considerada. A justificativa para isso ampara-se na importância que a transparência da informação tem em nossa luta por uma sociedade realmente justa e cuja tomada de decisões de fato emane do povo a partir de análises construídas pelo próprio povo.

Caso contrário, estaremos fadados a seguir como os cegos de Saramago, “cegos que vêem, cegos que, vendo, não vêem”.

Essa importância, entretanto, não parece fazer parte da agenda de alguns grupos que concentram boa parcela dessas informações. Mas ai, neste ponto, essa conversa toma outro caminho de pedras ainda maiores, quiçá mais tortuoso…

Dados e movimentos sociais

A produção de dados pelos movimentos sociais trazem análises, cruzamentos e extração de informações com modelos a partir das demandas e objetivos destes movimentos. Cumpre um papel importante no sentido de registrar, denuncia e divulgar informações sobre conflitos e violências sofridos pelos diversos sujeitos sociais e organizações populares, como também as vitórias e conquistas. Informações que na maioria das vezes não estão facilmente acessíveis, ou nem mesmo estão registradas nos sistemas governamentais de dados.

Seguindo este caminho existem algumas iniciativas de sistemas de disponibilização de dados voltados para os movimentos sociais como o Intermapas, o Conflitos Ambientais, Agroecologia em Rede, Proprietários do Brasil, Donos do Congresso, Donos da Mídia, entre outras. O Agroecologia em Rede por exemplo é um sistema de informações sobre iniciativas em agroecologia organizado por três redes que atuam no campo da agroecologia. É composto por um banco de dados de experiências, pesquisas no campo, além de um banco relativo a pessoas, movimentos sociais, grupos e redes. As possibilidades de pesquisa incluem dimensões como localização, identidades e sujeitos, instituições, grupos, áreas temáticas como saúde, sementes, sistemas Agroflorestais e seus sub-temas.

Uma outra iniciativa de produção de dados por movimentos sociais é o trabalho realizado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), com os cadernos de Conflitos no Campo no Brasil. Publicados anualmente desde 1985, estes dados foram sistematizados como forma de denunciar esta realidade, registrando conflitos por terra, expulsões e despejos, e os diferentes tipos de violência cometidos contra as pessoas, como assassinatos, ameaças de morte e prisões. Reúnem tembém dados sobre trabalho escravo, conflitos pela seca e manifestações envolvendo distintos temas. Os dados são obtidos por meio de pesquisas realizadas pelos próprios agentes dos Regionais da CPT, e pela reunião de documentos e informações fornecidos por sindicatos, igrejas, movimentos sociais e outras organizações ligadas diretamente aos trabalhadores. Outro meio são levantamentos feitos em revistas, jornais e publicações diversas de partidos e órgãos governamentais, entre outros.

O processo de geração de dados é permeado por escolhas, intencionalidades e pressupostos ideológicos. Não são elementos neutros e precisam ser problematizados ao serem analisados ou quando forem utilizados para a geração de novos dados. Nesse processo é preciso considerar as condições e contextos em que foram produzidos ou colhidos, o que pode resultar em resultados que muitas vezes podem não estar retratando a realidade. Ter cada vez mais movimentos sociais protagonizando esse processo é essencial na geração e obtenção de dados que ajudem como ferramentas de luta e dialoguem com a realidade.

Ferramentas – o que o jornalista precisa saber

Ferramentas: o que é necessário para que os jornalistas usem os dados?

Conhecimento técnico e um razoável domínio dos aplicativos que armazenam e gerenciam o imenso volume de dados disponíveis, e nem sempre bem utilizados e traduzidos, é o desafio da maior parte dos jornalistas atualmente.

A oferta de dados por institutos, órgãos do governo, fundações, instituições financeiras, colocada à disposição de interessados em seus portais, é farta e complexa. No Brasil, essa profusão de dados também está relacionada à entrada em vigor da Lei de Acesso à Informação.

Entretanto, aventurar-se por esses portais de dados requer, além de uma certa intimidade com planilhas e gráficos, também persistência e determinação em desvendar os caminhos tortuosos – verdadeiros labirintos – que levam à obtenção dos tão disputados e necessários dados. Afinal, eles enriquecem e embasam matérias, reportagens, artigos, pesquisas. Ajudam a contar histórias.

Nessa árdua e constante maratona em busca de dados, o site do IBGE pode ser um bom exemplo da quantidade de obstáculos que se enfrenta pra conseguir levantamentos confiáveis no país. É preciso muita superação já que o tempo, no caso de jornalistas, é sempre pouco.

Outro ponto importante é conhecer o mecanismo da geração de dados, isto é, que escolhas (premissas) nortearam a coleta de informações. Também transitar com desenvoltura por programas como Excel ou LibreOffice, e aplicativos como infogr.am que auxiliam na produção de interessantes e criativos infográficos.

Respondendo à pergunta inicial: qualificação. Com domínio das ferramentas disponíveis, os jornalistas estarão aptos cada vez mais a acessar bancos de dados e interpretar suas informações e significados, as ideologias que trazem, buscando outros olhares e outros lados, enfim, facilitando consideravelmente o trabalho de contar histórias por meio dos dados.